As vésperas de o dia mais fudido (perdão pela expressão) de minha vida completar um ano a dor está anestesiada.
Não sei como será no dia dezenove ou no próprio dia vinte.
Não sei qual reação terei, assim como há um ano eu não sabia como seria.
Fui eu que escolhi a caixa de madeira, fui eu quem levou o vestido e sugeriu a cor do batom. “Maquiagem leve.” Eu disse.
Às vezes converso com pessoas que tem aquele tom verde de olhos, hoje aconteceu.
Herdei sua casa, herdei muitas coisas, herdei a educação, aquela infância que também me deu esta sempre viva. Nosso amor também é imortal.
Minha crença pede que eu não pense assim, que não me comporte assim. Às vezes fujo a regra, esse momento é assim.
Passei o último ano maquiando a saudade e entretendo a dor.
Daquele final de semana e final de vida, talvez o pior dia tenha sido o vinte e um. É como se pudesse ouvir novamente o barulho das pás. O som das pás era no que muito pensava naquele momento, tinha muito medo de traumatizar daquele barulho. Não traumatizei, mas evito ouvir.
Quando as pás silenciaram, e os narizes fungando predominavam, quase caí. Fui segurada por Márcio, não fosse ele, teria sofrido a maior de todas as quedas. Lembro nitidamente dele me segurando. Minha dor era compreendida e respeitada. Minha dor causava preocupação a ele - Márcio- grande companheiro meu.
Depois disso, voltamos pra casa. Me vejo erguendo o colchão. Erguer o colchão não é nada quando se perde o que há de mais importante. Erguer o colchão foi mera distração.
Sei que talvez não pudesse estar fazendo o que faço agora. Mas, chega uma hora que temos de tirar a máscara.
Pedi para folgar no próximo domingo, quero estar ao lado de minha mãe. Iremos à missa no próximo domingo. Não gosto da missa, mas irei. Não gosto de perder, mas a perdi.
Não tive em momento algum revolta, nada questionei. O que senti foi simplesmente a dor que se sente quando a raiz é cortada.
No último ano sonhei. Os sonhos me iludiram, gostei dessas ilusões.
Ouço uma música que diz que “Quando tudo está perdido sempre existe um caminho...”, de fato, meu caminho continuou. Tornou se um caminho menos florido, menos iluminado. A ausência de seu sorriso às vezes está como nuvens que passam em meu sol.
Sei que foi melhor assim. Sei que aquele sofrimento não cabia mais.
Não sei se um dia voltaremos a nos encontrar, não tenho essa certeza, porém, tenho muito essa vontade.
De um ano pra cá passei a ter medos que antes não tinha. Temo perder meus pais. Entendo esse processo, respeito esse processo, mas temo sentir essa dor novamente.
Não quero mais ouvir o barulho das pás. Não quero mais erguer colchão algum.
Pode ser que pareça covarde. Não temo minha covardia, temo aquela inesquecível dor.
Domingo próximo, será a primeira missa de um ano, terei outras ainda eu acho.
É um aniversário que ninguém quer vivenciar, é um aniversário que não se comemora.
Não sei o que será de minha vida nos próximos anos, tudo o que sei é que sua história, minha criação e sua morte estarão comigo.
Não posso demonstrar minha tristeza, mas posso como sempre declarar meu amor.
Então, Vó onde quer que esteja EU TE AMO PRA SEMPRE ! ! !
>>>>> O trecho de música acima citado está no álbum A Tempestade – Legião Urbana – Faixa 5 - A Via Láctea <<<<<
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